Capítulo 4

Concentrar. Deter-se exclusivamente. Convergir para um ponto. Quando tento focar em mim mesma, é muito claro que o nó inicial da minha identidade é a escrita. Desde criança eu gosto de ler e inventar histórias. Na escola fui uma aluna mediana, não tirava notas baixas mas também não me destacava em nada. Existem evidências definitivas do meu comportamento escolar nos bilhetes que as professoras enviavam aos meus pais: “Andrea é uma criança muito boazinha mas não presta atenção em nada, está sempre longe, viajando.” Sei exatamente do que elas estavam falando e não tenho nem como me defender, pois realmente eu não aprendia nada nas aulas. Somente na hora de fazer a lição de casa ou estudar pra prova é que eu olhava com atenção o que diziam os livros e me surpreendia, estranhando nunca ter ouvido falar de nada daquilo durante as aulas. Por outro lado, sei também que esses momentos de distração não eram nada vazios. Eu ficava imaginando situações, personagens, cenários, tudo meio desconexo e sem sentido mas já rascunhando histórias na minha cabeça. 

Aos 9 anos pedi de aniversário uma máquina de escrever. Eu não sei por que mas na minha memória foi só com a chegada dela que comecei mesmo a escrever coisas que eram só pra mim. Não lembro de histórias escritas à mão, que não fossem alguma redação de escola.  Engraçado que eu nunca tentava escrever literatura, era sempre roteiro. Não que eu tivesse a mínima ideia de como fazer isso. Mas sempre que eu imaginava uma história, imaginava num formato de novela. Escrevia sinopses na minha máquina e listas dos atores que interpretariam meus personagens.

Devorava livros infanto-juvenis: Pedro Bandeira, Stella Carr, Ziraldo e toda a coleção de livros Vaga-Lume. Lembro que um dia meu pai chegou em casa muito feliz com um livro que era “famoso”,  O Alquimista de Paulo Coelho. Ele deixou o livro na mesa e foi jantar. Era a década de 1990, não tinha internet, não dava pra pesquisar rapidamente sobre o que era o livro antes de ler. Você simplesmente simpatizava com a capa e começava. Foi o que fiz, sentei em sua poltrona de couro e abri a primeira página. Era o maior livro que eu já tinha tentado ler. Terminei antes mesmo dele conseguir começar. A partir daí percebi que podia procurar nas estantes dos meus pais, mais leituras. Logo estava tentando imitar as descrições de personagem dos livros de Agatha Christie, mesmo sem entender o que eram as tais “células cinzentas” de Hercule Poirot. Meus pais tinham muitos livros do Luís Fernando Veríssimo e eu lia todos, várias vezes. Com ele aprendi o que é ironia, sarcasmo e piada inteligente. Achava muito engraçado como demorava uns segundos pra entender completamente a crítica por trás das piadas dele e gostava desse delay. Comecei a gostar também dos jornais. Recortava matérias com fotos ou histórias que me atiçassem a imaginação, e gostava em especial dos cronistas de futebol que conseguiam extrair narrativas épicas de simples jogos de bola.

Todas as minhas amiguinhas reviravam os olhos quando eu preferia ficar lendo num canto do que sair pra brincar com elas. Uma vez durante as férias fui passar uma semana na casa de uma coleguinha de escola. Na primeira noite encontrei na estante da sala um livro grosso, com uma foto em preto e branco de uma menina na capa. Em todos os pequenos intervalos que eu achava entre as brincadeiras eu enfiava a cara nesse livro e à medida em que a leitura avançava, mais eu esticava essas pausas de leitura. Minha amiguinha ficou chateada e até reclamou com a mãe dela, acho que ela queria me devolver pra casa antes do tempo combinado. Eu percebia essa movimentação à minha volta mas não conseguia prestar atenção nela, porque o livro era o Diário de Anne Frank. Sinceramente, como seria possível não mergulhar nele? Que boneca, que jogo, que brincadeira seria mais fascinante?  Sempre foi uma paixão muito solitária. 

De qualquer maneira, quando fiquei mais velha, tudo isso me direcionou pra área de comunicação. Eu queria ganhar dinheiro escrevendo, esse era meu objetivo. Primeiro quis ser jornalista, pois parecia ser essa a profissão dos escritores que eu conhecia. No colegial eu achei que seria bom escrever coisas divertidas e engraçadinhas, então comecei a me imaginar publicitária. Quando eu descobri do que realmente se tratava a publicidade vi que não tinha nada a ver. Por fim descobri que era possível estudar pra trabalhar em tv. Foi assim que escolhi o curso de Audiovisual. Escrevi pouco durante a faculdade. Foi uma época bem difícil, por razões que por hora não vale a pena mencionar, e sei que não aproveitei de verdade todo o mundo de possibilidades que se abriu pra mim naquela época. Nem sempre a paixão que a gente carrega pelas coisas brilha, às vezes ela fica meio mortinha e apagada dentro da gente. Essa fui eu na faculdade. E também eu tinha a impressão de que lá todo mundo escrevia e escrever não tinha nada de diferenciado. Acabei me especializando em edição, pois achava que era bom saber mexer num software.

Só que assim que eu me formei, vi que não é bem assim essa história de que “todo mundo escreve”. Consegui emprego como redatora de tv e assim fui por uns 10 anos. Eu tinha muita facilidade pra entender o que os meus chefes queriam e traduzir isso no texto. Acho que tem muito a ver com ler livros de adultos e entrar em contato bem cedo com certas ferramentas de linguagem como ironia, metáfora, suspense…  Pra explicar meu trabalho de um jeito bem simples: eu escrevia o que os apresentadores falavam nos programas. Mais precisamente, trabalhei muito no setor de chamadas de tv, ou seja, escrevia textos para os apresentadores falarem naqueles vídeos de 30 segundos que aparecem durante os intervalos comerciais anunciando o que vem no programa seguinte.

No começo eu ficava encantada com a felicidade de ser paga para ficar o dia inteiro escrevendo. Eu me achava a pessoa mais sortuda do mundo! Além disso, tinha um certo desafio em domar as palavras, tentar encaixá-las no melhor lugar de cada frase ou escolher a que tinha a dose certa de significado, informalidade e graça necessária pra cada momento. E quando já na cabine de som, com um locutor impaciente na minha frente, eu precisa editar o texto pra caber na duração exigida, sempre me sentia numa gincana – uma que eu sabia como ganhar.

Aos poucos, fui entendendo os pormenores do ofício. Quando você escreve pra um apresentador de tv, o mais importante é que o texto soe natural. Pra isso é importante prestar atenção no jeito dessa pessoa se comunicar: se o vocabulário é mais elegante ou mais informal, se usa algum bordão, se tem um tom frio, alegre ou motivacional, se tem habilidade pra entender jogos de palavras, piadinhas e conexões de um assunto pro outro. Não adianta você ser o mais bem-humorado e perspicaz dos redatores se quem vai ler o texto não é.

Isso quando estamos falando de linguagem, com o conteúdo a história é outra. Você pode ser um apresentador que não entende nada de política, não tem opinião nenhuma formada sobre os assuntos que afligem a sociedade, pode ter achado um porre aquele filme de arte que todo mundo está elogiando, mas se você souber trabalhar com o teleprompter, você será a pessoa mais bem esclarecida do mundo. Eu já vi até apresentadora que não entendia nada de inglês entrevistar um ator americano apenas lendo um papel. Ela conseguia imitar o som que as palavras deveriam ter em inglês, fazendo as perguntas com um sotaque bonito. Claro que ela não entendia nenhuma das respostas, mas você jamais adivinharia vendo como ela acenava a cabeça e sorria.

Foram 10 anos escrevendo textos pra programas de tv, vídeos institucionais, comerciais e chamadas. O encantamento inicial foi se dissipando e uma coisa muito estranha começou a acontecer. Ao mesmo tempo em que eu não dava mais muito valor à minha posição, ela fazia eu me sentir parte importante de uma máquina. Especialmente no meu último emprego onde fiquei por 5 anos. Eu sabia como tudo funcionava, tinha pessoas que confiavam em mim e escutavam minha opinião. Eu me sentia segura e confortável nesse trabalho, talvez até demais. A ponto de estar completamente entediada.

Eu tentava varrer essa desmotivação pra baixo do tapete, pois nem entendia muito bem da onde ela vinha. Afinal eu tinha conseguido o que sempre quis: meu trabalho era escrever. Tudo bem que não era exatamente isso que eu queria escrever, mas ainda assim, exigia de mim criatividade, técnica, senso crítico. Fora a estabilidade financeira. Preciso dizer que o setor de audiovisual brasileiro é completamente caótico? Bom, ele é. Ter um emprego fixo, registrado, com diversos benefícios e carga horária bem delimitada, como era o meu caso, não é das coisas mais comuns. Eu me tranquilizava dizendo pra mim mesma que ficaria trabalhando ali porque pelo menos juntava dinheiro para meu casamento e depois, poderia esperar também até até ter um filho, para poder usar a licença maternidade. Só depois disso tudo, eu sairia para finalmente escrever o que eu realmente queria, ficção. Só então, casada, mãe e plena, eu começaria a escrever meus filmes e seriados.

Até que esse plano faria sentido lógico, se ele não fosse completamente mentiroso. Ele camuflava meu medo de ter que começar de novo, investir em algo incerto e ter que provar meu valor como autora. Tanto que durante esse período todo eu bem que poderia ter escrito algo no meu tempo livre, um livro, um roteiro, qualquer coisa. Eu até fiz alguns cursos mas acabava não conseguindo terminar nada. A verdade é que eu tinha colocado a minha imaginação à venda e não tinha sobrado uma gota pra eu mesma beber. Era uma imaginação encomendada, sem selo de procedência. E eu não aguentava mais ser a máquina que recebe uma moeda e devolve uma lata de textos corretos e insípidos de volta. 

Me veio mais uma onda de raiva e frustração quando percebi que tinha deixado de lado toda minha ambição de escrever por um casamento para o qual nunca fui pedida e um bebê que nunca existiu além do meu imaginário. Meu namoro acabou e com ele, a necessidade de ficar num emprego que eu não queria mais. Não havia mais desculpa. Percebi que meu trabalho era outro relacionamento sério de 10 anos que já não fazia sentido nenhum. Será que eu conseguiria passar por outro término assim tão rápido? 

Não sabia o que fazer.

Só sabia que era muito triste não ser dona da minha própria imaginação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: