Como reescrever seu roteiro

Quando falei pra minha coachee que a gente ia reescrever todo o roteiro dela em 3 meses recebi uns belos de uns olhos arregalados.

“TODO O ROTEIRO?!?!?!”

Acho que ela já imaginou que teria que jogar suas 120 páginas na Lixeira e começar do zero. A ideia não é essa, mas ela também não está assim tão distante da verdade. Mas calma, deixa eu explicar.

Depois de levar meses – muitas vezes, até anos – pra terminar um roteiro de longa, é normal criar um certo distanciamento. Você se sente esgotado por ter colocado todas as suas ideias no papel e tem certeza de que não há mais nenhuma oportunidade a explorar ali. Mas como vocês já devem ter ouvido por aí, escrever é reescrever, reescrever e reescrever.

Neste post vou falar como entrar nesse processo de reescrever um roteiro com a mente renovada, quase como se você estivesse entrando num novo projeto. Separei quatro passos:

  • Pedir opinião para pessoas de confiança
  • Pesquisar
  • Mergulhar nos personagens
  • Ser drástico

Vamos lá?

1. SE CONSELHO FOSSE BOM…

A primeira dica é pedir a opinião de pessoas da sua confiança, que possam ler e criticar o seu trabalho. Isso faz a gente ver a história por outro ângulo, perceber partes confusas ou desconexas que só fazem sentido na nossa cabeça, e ainda, quais personagens agradam e quais não tem carisma algum, etc. Uma simples conversa sobre a história já pode acionar seu cérebro a explorar novas ideias.

Já dizia o ditado que se conselho fosse bom ninguém dava, vendia. Concordo que conselho não é fácil de achar.  Porém se você parar pra pensar, tem muita gente SIM que vende conselho (terapeutas e coaches, por exemplo) pelos quais vale a pena pagar. Mas como separar o joio do trigo?

Eu diria pra escolher uma pessoa DISCRETA, que não vai sair contando a sua história pra todo mundo, e o pior, falando mal dela! De preferência alguém que TAMBÉM ESCREVE e conhece as dificuldades dessa tarefa, ou alguém que lê/assiste o gênero que a sua obra trata. E por fim, uma pessoa que seja GENEROSA, que saiba reconhecer os pontos positivos do seu trabalho e fazer críticas construtivas que vão te ajudar a encontrar soluções.

Claro que nem sempre é fácil encontrar esta pessoa (quando você encontrar, não largue mais)! Por isso é primordial também aprender a FILTRAR os conselhos. Às vezes não é por mal, a pessoa não entendeu direito a sua mensagem ou não gosta do estilo que você escreve. Outra vezes, ela se prende a detalhes que pra você não são importantes. Não vale a pena ficar pirando em qualquer crítica boba, mas também não se feche ou fique ofendido quando alguém for duro demais e não disser o que você espera ouvir.

Pra ter esse equilíbrio não existe fórmula mágica. É importante se AUTO-CONHECER. Isso não acontece da noite pro dia e acho que aí entra uma gama de coisas que envolve não só sua identidade de escritor, mas identidade como pessoa. Então vá pra terapia, faça ioga, assista uns vídeos da Jout Jout, enfim, se enfrente, se olhe no espelho (metaforicamente ou não) e comece a discernir o que te ajuda a crescer e o que te derruba.

É um processo. Não tem outro jeito, põe as coisas na internet, mostra pros amigos, professores, namorado. Ouça coisas ruins, ouça coisas boas, vá aos poucos entendendo o que te ajuda ou não. Vai lá e dá a cara a tapa.

 

2. OI, GOSTARIA DE FAZER UMA PESQUISA? 

Na hora de reescrever um roteiro ou um conto, vale a pena aprofundar a pesquisa do universo que você está abordando. Não só pra ter uma história mais realista ou fugir de estereótipos, mas também pra buscar inspiração.

Tem uma cena acontecendo num café? Visite um lugar parecido e anote o que te rodeia. Não se prenda ao visual, tente definir cores, cheiros, sons, sensações… Observe os trabalhadores. Estão felizes, entediados, de mau humor? A atitude deles muda quando atendem um cliente ou conversam com determinado colega?

Fique com os ouvidos atentos à conversas, o que será que eles escutam todo dia? Cantadas? Broncas? Reclamações? Uma vez ouvi uma mulher reclamar da xícara em que foi servida (a coisinha mais linda do mundo mas não tinha alça e ela achou isso um absurdo). Espere pelo inesperado, como quem arma uma arapuca.

Está pesquisando um personagem? Procure alguém que viva uma situação parecida ou represente o grupo em que esse personagem se encaixa (é classe média, gay, morou em 5 cidades diferentes antes dos 15 anos?) e converse com ela. Mas converse como um escritor. Não escute apenas o que essa pessoa diz com palavras, observe o jeito como se veste, como se move e o subtexto da conversa.

E vá com a mente aberta. Não assuma que as coisas são do jeito que você imagina porque a realidade pode ser confusa, contraditória, surpreendente e isso é bom demais. Com certeza você vai encontrar muitos detalhes inesperados que podem dar mais vida à sua história.

 

3. CONHEÇA MELHOR SEUS PERSONAGENS

Essa dica é tipo vinagre com bicarbonato de sódio, tem mil e uma utilidades. Pra reescrever um roteiro é importante se aprofundar na criação de personagem. A história melhora, os diálogos melhoram, a caracterização melhora, TUDO FAZ MAIS SENTIDO (EU PROMETOOOO)!

Vá além da fórmula qualidades+defeitos+problema+objetivo. Crie um passado pro personagem, entenda suas motivações, seus traumas, suas lembranças. Busque pelos detalhes, o que gosta de comer, qual sua peça de roupa favorita, a primeira coisa que faz ao se levantar. Entenda sua psique, como pensa, como fala, aonde se contradiz.

E aí você me diz: “mas pra quê, minha história se passa em uma semana, não vai dar tempo de usar tudo isso.” Verdade. Provavelmente você vai colocar nas suas páginas 20% de todo esse trabalho de construção. Só que em cada fala, cada ação, cada decisão, você vai ter 99% de certeza que é assim que seu personagem agiria se fosse uma pessoa real. E isso transparece.

Uma boa construção de personagem não serve apenas pra ter um personagem interessante e autêntico. Serve pra guiar a história pois através das reações do personagem é que você vai entender qual o passo mais natural pra narrativa seguir.

*Leia mais sobre isso no artigo 5 Passos pra Criar personagens autênticos

4. VIDA LOKA

Reescrever é um estágio muito legal porque você já terminou seu roteiro, conto ou livro uma vez. Você já salvou uma primeira versão completinha numa pasta especial e lá ela vai ficar. Agora você tem a liberdade de experimentar, tentar coisas novas, editar coisas antigas, sabendo que mesmo que todas as mudança que você fizer fiquem ruins, você tem uma versão completinha a salvo, e pode sempre voltar pra ela. Por isso, seja #vidaloka:

  • Não tenha dó de destruir cenas inteiras e até mesmo personagens. Em alguns casos é melhor apagar do que remendar o que não tem jeito. Aceita.
  • Tente encurtar cenas cujo ritmo está arrastado ou que não tenham muita função
  • Troque cenas de lugar
  • Junte acontecimentos que estão em cenas separadas ou separe cenas que têm situações muito diferentes

ENFIM

No fim das contas, reescrever um roteiro não significa jogar todo seu trabalho fora. Significa revê-lo, mesmo nas partes em que você achou que acertou. Isso porque a partir do momento que você fizer mudanças significativas num determinado ponto da história, o que vier a seguir precisará ser reescrito também, tanto pela lógica quanto pelo estilo. Além disso, o que você achou que já estava bom  pode ficar ótimo.

O importante é você embarcar nesse processo de cabeça aberta, sabendo que ele é imprescindível pro seu trabalho ficar ainda melhor!

GOSTOU? SE INTERESSOU? TÁ VIVENDO ESTE DILEMA AGORA?

Vamos conversar!

No meu Coaching de Escrita tenho dois serviços pra oferecer:

  • Análise de roteiro longa metragem (leio o roteiro todo e envio um documento com o resumo da história e uma análise criteriosa, cerca de 3 páginas).
  • Análise de roteiro + Pacote de 12 sessões pra reescrever (aulas, conteúdos e exercícios escolhidos de acordo com as necessidades do coachee + leitura das novas páginas, feedback e orientação)

Escreva pra andreayagui@gmail.com ou deixe um comentário que a gente marca uma consulta gratuita onde vou te explicar melhor meu processo e entender melhor os seus objetivos.

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