Comprando um livro pela capa

Aconteceu. Comprei um livro pela capa.

Sei que é clichê dizer que seu livro preferido é Cem Anos de Solidão mas realmente não consigo pensar em outro título que tenha me causado uma impressão tão forte quanto este. Li pela primeira vez há muitos anos, peguei um exemplar emprestado de um colega estagiário e nunca mais devolvi. Era uma edicão bem sem graça, capa mole, plastificada, páginas coladas. Mas fiquei bastante impressionada com a história e principalmente pelo primeiro contato com o estilo de realismo mágico. Foi como se eu reencontrasse algum objeto perdido muito bem quisto mas já quase esquecido da memória, como algum bichinho de pelúcia esquecido num hotel qualquer da minha infância.

Quando fui morar em Los Angeles, quis ler o livro novamente pra estudar alguns trechos. Quando minha mãe foi para os Estados Unidos pedi pra ela levar o livro. Não o encontrou e acabou comprando outro num sebo. Esse livro, coitado, era uma edição ainda pior que a primeira, pois além de ser produzido de maneira bem econômica estava também bastante envelhecido, com páginas amareladas e capa rasgada. É aquela coisa, pra quê gastar dinheiro se  o que importa é a história?

Eis que passeando por uma livraria num outro dia, me deparei com uma nova edição de Cem Anos de Solidão, a mais bonita que já vi na vida. Pra começar, tem capa dura. Uma arte lindíssima, com uma borboleta amarela (cena clássica do livro) envolta num círculo de plantas, folhas e flores que parecem ter crescido na selva, e não num jardim.

Por cima da ilustração, espalham-se diversas formigas, impressas num vermelho laminado que se afunda. Quando você passa a mão pela capa, pode sentir de leve a textura das formiguinhas. Além disso, o brilho delas muda a medida em que você move o livro sob a luz, dando a impressão de que elas se movimentam também.

O material da capa é diferente, aveludado e acolchoado. É embrulhado pela cinta preta com o nome do autor e o título em amarelo e branco. Quando você tira a cinta, tem a sensação de estar segurando uma tela de pintura. As páginas são costuradas e protegidas pela tranchefila amarela e vermelha, coisa raríssima de se ver hoje em dia. Guarda e contraguarda de papel grosso e papel pólen gostoso de manusear.

Procuro o nome de quem fez o projeto gráfico: Renata Vidal. Não sei quem é Renata Vidal, não procurei a informação esperando encontrar um nome conhecido, já que desse ramo não se fazem celebridades e nem eu sou tão versada no assunto a ponto de reconhecer nomes próprios. Mas me pareceu adequado procurar um nome e sobrenome, já que essa capa (e o trabalho como um todo) exala autoria, humanidade e voz própria.

Queria que ficasse registrado aqui que comprei esse livro pela capa, pois o conteúdo já conhecia. Foi um luxo, uma futilidade, um mimo. E isso me fez lembrar que os livros têm mesmo esse poder de não serem apenas uma mídia, mas sim de serem objetos mágicos, caixas de joias, obras de arte.

E pensar que no ano passado estava considerando comprar apenas livros digitais.

*obs: achei o portfólio da Renata, nele dá pra ver mais detalhes do projeto gráfico. Inclusive tem um vídeo mostrando o brilho das formiguinhas! Aqui: Portfólio Renata

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