Os resultados e as frustrações – como lidar

como lidar com a frustração

Maio e junho foram meses de entrega. Emocionalmente e literalmente falando. Guiões, Frapa, Fulbright, Laboratório Novas Histórias, spcine, todos esses concursos e editais de roteiro estavam com inscrições abertas na mesma época. O que tornaria os meses a seguir ainda mais tenebrosos, os meses dos resultados, dos corações partidos, das folhas rasgadas e das perguntas sem resposta. Como lidar com a frustração dos resultados negativos? Enquanto eu mesma aprendo a lidar com as minhas frustrações, também aprendo muito entrando em contato com a frustração dos meus alunos.

“Achei que estava tão bom.”

“Me esforcei tanto.”

“Mas só ganha quem já é conhecido.”

“Passei duas noites acordado pra entregar e não adiantou nada.”

Acredite, como coach de escrita, eu escuto várias versões de lamúrias e todas elas no fundo dizem a mesma coisa: “Eu sou uma fraude.” Como lidar com a frustração de ser uma fraude?

E pra quem ganhou? Quem viu seu nome na lista final? Quem ganhou tá ansioso demais imaginando como vai ser daqui por diante.

“Vou ser contratado?”

“Vou vender meu roteiro?”

“Vou fazer um bom pitching?”

E lá no fundo aquela pergunta que ninguém quer responder: “Será que vão descobrir que sou uma fraude?” Como lidar com a frustração de finalmente se descobrir uma fraude?

Se tanto quem ganha quanto quem perde, no final das contas, fica nadando numa montanha de ansiedade com gosto de refluxo gástrico, por que diabos a gente dá tanto valor para os resultados? Se somos os mesmos, os que ganharam ou perderam, e a diferença pode estar numa vírgula, por que a gente deixa isso nos atingir tanto?

À parte nossas inseguranças humanas, será que você sabe o que faz um roteirista ser bom? Consegue avaliar seu próprio trabalho tecnicamente? Mostrou pra pessoas o suficiente pra ter uma ideia de como ele emociona os outros?

Meu trabalho não é fornecer um gabarito emocional, não há folha de respostas na minha área de downloads gratuitos. Outro dia mesmo meu coração quase parou quando notei que tinha um email da *Fulbright na minha caixa de entrada (era apenas pra avisar que eles tinham mudado de endereço, mas nesse segundo entre a notificação e a leitura do email, todas as possibilidades passaram pela minha cabeça).

Eu também ligo, eu também me importo, eu salvei no YouTube a “meditação para alcançar objetivos”. Mas tento ter em mente que no fundo, não importa. Meu trabalho, que eu mesma me dei, é dizer “calma lá”. As coisas se ajeitam. Não importa o que aconteça, não é o fim do mundo. Let it be. Porque resultado nenhum pode me impedir de fazer o que eu mais gosto, que é escrever. Escrever é coisa minha. E é de graça. Não é como medicina ou Fórmula 1, você pode fazer o quanto quiser. Você pode usar o mais novo macbook ou pode usar um saco de pão e uma bic, sua escrita continua sendo a mesma nos dois.

Tá tudo bem. Pra quê você precisa ganhar um concurso?

Pra saber se é realmente bom? Ué, mas não tem outro jeito de saber? Você estuda tanta técnica, estrutura, paradigmas, assiste tantos filmes e seriados, e não é capaz de fazer uma leitura crítica do próprio trabalho?

Será que é pra conseguir contatos profissionais? Mas você só consegue abordar a realeza do audiovisual se andar com o resultado do concurso no bolso?

Pra finalmente tirar seu projeto do papel e vê-lo produzido? Sim, editais ajudam e muitas vezes são a única maneira de fazer um projeto acontecer. Concursos vão te dar uns trocados, muitos likes no face e alguma repercussão. Mas tem outras maneiras de fazer as coisas acontecerem e talvez você deva focar nelas.

Será que a gente quer passar nos concursos pra conseguir permissão? Aval? Aplausos? Você acha mesmo que ganhar um concurso vai te fazer invencível pra sempre? Pra finalmente poder encher o peito e dizer, sou um roteirista? Mas será que precisa disso tudo?

Não sou contra participar de concursos, pelo contrário! Acho importantíssimo aprender a competir, a se preparar com seriedade, arriscar, se jogar, dar a cara a tapa. Acompanhei de perto a Letícia, minha amiga e coachee que depois de um ano reescrevendo seu roteiro, está sendo finalista de tudo que é concurso por aí. É muito legal ver o trabalho reconhecido, comentado, selecionado em tantos lugares, mas veja bem, sempre que a gente conversa sobre isso ela fala: “Tô tão feliz, porque eu gosto de verdade desse roteiro”. Ela já amava esse roteiro antes mesmo dele ser gostado pelos outros. Então vamos competir sim, mas que seja buscando desenvolvimento, não aprovação ou permissão pra continuar.

Vamos fazer um trato? A gente estuda, trabalha e se esforça bastante pra um dia se sentir seguro o suficiente pra dar a si mesmo essa permissão? Daí ninguém vai poder tomá-la. Nenhum professor vai conhecer o esconderijo secreto. Nenhum crítico vai ter a senha do cofre. Nem mesmo os espectadores vão saber da onde vem tanta ousadia de continuar a criar mesmo diante do fracasso.

E se você ganhar, que bom!

 

 

*Esse texto foi iniciado há um tempinho, mais updates nesse assunto em breve.

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