Dá pra ser Roteirista com TDAH?

roterista com TDAH

Neste artigo, quero conversar com você, meu amigo e minha amiga roteirista neuro divergente, mais especificamente, roteirista com TDAH. Sabemos que viver num mundo feito para pessoas típicas é muito desafiador. E se você descobriu o diagnóstico na fase adulta e possui alguma comorbidade, sinta-se abraçado. Eu te entendo, é impossível chegar ileso.

Aos amigos e amigas roteiristas neurotípicos, considero importante a leitura desse artigo. Para escrever histórias potentes, com visões únicas e que consigam despertar identificação, as salas de roteiro devem ser diversas; um ambiente seguro e acolhedor, que estimule a nossa criatividade e potencialidade.

Certa vez, eu ouvi de um amigo que era perfeitamente possível trabalhar em algo que não gostasse, mas que pagasse muito bem, e fazer o que ama apenas como hobby. Imediatamente eu gelei e pensei que deveria ter algo errado comigo, afinal eu não me imaginava fazendo algo que não gostasse por muito tempo. Eu precisava trabalhar com algo que me fizesse feliz.

Anos depois, diagnosticada com TDAH, entendi que esse pensamento não era apenas uma ideia abstrata sobre a vida, mas algo que fazia parte da minha essência, ou se preferir, funcionamento cerebral. Foi quando compreendi que muitas características que eu acreditava fazerem parte da minha personalidade eram na verdade de algo bem mais complexo.

Além do meu ponto de vista, para escrever esse artigo conversei com as roteiristas Leticia Padilha e Mabel Lopes, que descobriram o TDAH na fase adulta. Elas contam sobre a vida antes e depois do diagnóstico, como desenvolveram uma qualidade de vida melhor e como tem sido suas experiências nas salas de roteiro do Brasil.

 

Antes e depois do diagnóstico

Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), o TDAH é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Para entender mais sobre os sintomas e espectros, o artigo da ABDA trás todas as informações.

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade atinge cerca de 4,4% da população brasileira, desse número apenas 20% é tratada e diagnosticada. Isso significa que existe um alto número de pessoas que chegam à idade adulta sem o tratamento adequado. Esse número é ainda maior quando se trata de mulheres e da população negra.

Letícia é socióloga com pós-graduação em roteiro para cinema e tv pela FAAP e especialização em comédia pela UCLA. Ela trabalha com roteiro desde 2013 e hoje é uma profissional que se destacou no mercado como roteirista de comédia. Mas, esse caminho foi construído com muitas inseguranças e medos.

Letícia conta que o período escolar foi bem conturbado. O método de ensino não conseguia captar a sua atenção e por conta disso, sempre teve dificuldade de fazer tudo que era imposto. Lições e trabalhos de casa eram finalizados sempre nos 42 minutos do segundo tempo – ônibus, intervalos, matar aula para fazer o exercício. “Eu tinha uma meta, com qual método eu ia cumprir essa meta era um problema meu, ela só não podia ser imposta”.

Ao entrar no mercado de trabalho, tudo ficou bem mais desafiador. Letícia trabalhou como recepcionista, vendedora, telemarketing, trabalhos que exigiam muitas tarefas operacionais nas quais ela não tinha muitas habilidades e por isso cometia uma sucessão de erros. “Eu era mandada embora com muita frequência. Em 2011 quando eu comecei a trabalhar na área [audiovisual] também foi muito difícil; eu tinha que me ambientar muito ao método das pessoas e isso sempre foi muito sofrido pra mim. Até que em 2014 eu fiz o teste e fui diagnosticada.” Letícia se encontra no espectro desatenta e sua hiperatividade é mental.

Mabel Lopes é roteirista e diretora formada em Audiovisual pela USP. Ela participou de salas de roteiro como Turma da Mônica Jovem; Zoo da Zu, Mundo Curiozoo – todas séries infanto- juvenis. Mesmo com uma carreira consolidada, Mabel tinha dificuldades de se sentir roteirista. Ela conta que sempre se sentiu mais lenta e diferente das outras pessoas.

Todo esse sentimento gerou uma sensação de inadequação em seu pré diagnóstico. “O TDAH não diagnosticado me fazia sentir preguiçosa e eu acho que trabalhava demais em coisas que sem dúvida não foram úteis. Eu poderia ter abordado isso de forma mais carinhosa comigo mesma.”

No entanto, ela também ressalta as vantagens. Devido a dificuldade de ter foco, ela desenvolveu uma habilidade de ter vários hiperfocos na vida. Se você não sabe o que é hiperfoco, mais pro final do texto eu explico direitinho. Isso foi muito positivo porque aos 13 anos ela já sabia o que queria fazer: direção de tv e cinema. Essa era uma diferença que a deixava muito orgulhosa de si mesma.

Em 2017, Mabel sentiu a necessidade de investigar um pouco mais sobre sua saúde mental. Foi então que, aos 33 anos, descobriu o TDAH e que se enquadra no espectro desatento e hiperativo. “No início eu não acreditei que tivesse. Tem aquele luto e você começa a entender o que é do transtorno e o que é a sua personalidade.” Depois do diagnóstico, Mabel passou a ler mais sobre o assunto e descobriu como o TDAH influencia na sua escrita e se tornou mais confiante sem se culpabilizar por não ir além do que gostaria.

Eu acredito que a culpa é uma das primeiras coisas que um TDAH busca dissolver depois do diagnóstico, e isso leva um tempo. Antes de entender como o nosso cérebro funciona, fazemos de tudo para nos encaixar no padrão e isso é muito desgastante. Entender que não há nada de errado e encontrar técnicas que nos tornam funcionais, pode mudar completamente a nossa visão sobre nós mesmos.

 

Auto-estima do roteirista com TDAH

A autoestima do TDAH costuma ser bem afetada ao longo da vida. Isso acontece porque geralmente nós temos uma autopercepção afetada pelas características prejudiciais do transtorno. Durante a nossa infância e adolescência escutamos que somos desorganizados, desatentos, atrasados e passamos a acreditar nisso em muitos momentos. A boa notícia é que tudo que foi construído em nossa mente também pode ser desconstruído.

As constantes demissões afetaram bastante a autoconfiança de Letícia. Em 2011, quando começou a trabalhar com audiovisual, as suas chefes eram mulheres que resistiram às lideranças masculinas dos anos 80 e 90. Mulheres que aprenderam a liderar quando a cultura ainda era pelo grito. Por conta disso, Letícia sofreu muito assédio moral, o que a deixava ainda mais insegura. “Eu era chamada de retardada, lesada, ‘você é lerdinha né, você não entende né?’Você é autista? Às vezes eu fazia umas anotações pra mim e as pessoas olhavam e perguntavam ‘assim que você quer ser roteirista? Ninguém entende o que você escreve’. Eu ouvia coisas bem pesadas.”

Por outro lado, Letícia conta que entende que essas críticas eram a forma como essas mulheres encontraram para ajudá-la a “criar casca” para trabalhar no audiovisual. O teatro foi um meio que ela encontrou para se expressar e, como roteirista, trabalhar seus diálogos. “O que o diagnóstico e o tratamento fazem é te deixar funcional, fingir que você pertence – e isso causa muita ansiedade. Com o tempo você vai pegando manhas e percebe o mérito que tem. Porque alguém tão ruim não estaria nesse lugar.”

Hoje, Letícia tem 10 anos de experiência como roteirista e participou de projetos como “A Culpa é da Carlota” e “Auto Posto” no Comedy Central, “Faz teu nome” no Multishow e séries infantis como “Super Lila”, no Discovery Kids e “Os Chocolix” na Nickelodeon.

Já Mabel comenta a dificuldade que ela tinha em terminar projetos. Por isso, quando descobriu no que gostaria de trabalhar, focou em seu objetivo dando o melhor que podia. Ela conta que demorou a se sentir roteirista, mesmo escrevendo desde o início da faculdade. Com o tempo, ela foi percebendo como tudo funcionava e passou a se adequar aos seus horários sem exigir mais de si mesma. “Só com o diagnóstico eu pude ver com mais clareza a minha parte julgadora e o quanto isso afeta minha autoestima.”

Ao mesmo tempo em que Mabel sentia orgulho de suas habilidades, por outro lado ela se sentia culpada demais quando lembrava dos traumas causados pelas notas baixas na escola, por não conseguir chegar ao final de alguns projetos ou não conseguir acompanhar uma conversa. “Só com o diagnóstico eu percebi que mesmo a parte da qual me orgulho não é necessariamente quem eu sou, que há mais para além disso. Não são essas coisas que tem a ver com o TDAH, mesmo as boas, que me definem.”

 

A descoberta como roteirista

roteirista com tdah

Quando roteiristas TDAH escrevem, a questão vai além da habilidade de contar boas histórias. Na verdade, está diretamente ligado a nossa liberação ou recepção de dopamina, aquele hormônio da felicidade e do prazer. Afinal, o TDAH tem dificuldade em fazer tarefas que não dão prazer algum.

Letícia conta que depois de ser demitida de vários empregos diferentes, ela parou e se perguntou no que realmente ela era boa. “Sei escrever, sei tocar violão e sou afinada; vou viver de uma dessas 3 coisas.” Ela pegou todo o seu fundo de garantia do último trabalho e investiu tudo num curso de roteiro. Ali, ela percebeu o quanto era importante não só a formação, mas se aproximar de pessoas, fazer aquele network.

Sem dinheiro para continuar sua formação, ela mandava email para professores pedindo para trabalhar como monitora em troca dos cursos. “Trabalhar com televisão era algo que sempre fez parte de mim, meu coração disparava quando passava pela torre da tv. Eu percebi que eu ia dar certo em algo que me fizesse feliz porque não ia adiantar entrar no método das outras pessoas sem que eu tivesse uma contrapartida satisfatória.”

Quando os projetos começaram a chegar, Letícia percebeu que precisava montar o seu próprio cronograma e estabelecer o seu próprio método. Alí, sua carreira deslanchou. Letícia conta que sente pânico toda vez que recebe um cronograma. Então, ela escreve em seu caderninho o dia que precisa entregar determinada tarefa – e entrega! Essa foi a melhor forma que ela encontrou para ser funcional.

Mabel gostava de escrever desde criança, mas tinha uma insegurança muito grande por conta dos traumas relacionados ao TDAH. Durante a faculdade, Mabel começou a escrever com os amigos roteiristas Ivan Nakamura, Pedro Aguilera e Natalia Maeda. “Eu aprendo muito com a prática e essas parcerias me ajudaram muito a escrever roteiros.” Essa experiência foi muito marcante porque nessas reuniões, além da troca de ideias sobre narrativa, eles passavam o dia escrevendo cenas.

Além de estudar, Mabel também trabalhou como professora de inglês para pagar o cursinho de pré vestibular e passar para o curso Audiovisual na USP. A segurança de se sentir roteirista só chegou quando Mabel escreveu o Zoo da Zu (2014) e Mundo Curiozoo (2021), séries infanto juvenis da Discovery+. Ali, Mabel descobriu o quando ela ama estar na sala de roteiro e de se comunicar com as pessoas.

 

Traçando estratégias para roteirista com TDAH

Sabendo do diagnóstico ou não, nós traçamos estratégias para lidar com as dificuldades que o transtorno nos causa. Mas, ainda assim, tópicos como organização e cumprimento de prazos podem ser bem desafiadores.

Para Letícia, o jeito certo de se organizar e registrar as ideias pode variar bastante. Você pode usar uma lousa, o Google Agenda, um caderninho, o alarme do celular… essa organização depende de como você se sente confortável e qual a melhor maneira de te fazer ser funcional.

“É como se eu tivesse numa negociação com o mundo: eu vou fazer do meu jeito, mas em troca disso eu vou te entregar do jeito que você quer, no prazo que você quer.” Para isso, é muito importante o uso da medicação, terapia, tudo que possa te fazer uma pessoa mais funcional.

Outra estratégia adotada por Letícia é dividir o projeto em pequenas tarefinhas e metas. “Pensar por partes me ajuda, porque se eu vejo o todo me dá pânico. Dividir por bloquinhos e ir por etapas me ajuda. Agora eu vou pensar no personagem, depois a curva do personagem, depois o plot, depois beat sheet. Eu tenho muita dificuldade de ver o todo e também tenho muita facilidade em me perder nos detalhes.” Dividir o roteiro em 12 partes de 8 minutos também pode ser uma estratégia muito boa ao invés de escrever o roteiro inteiro de uma vez só.

Já Mabel tinha o hábito de anotar absolutamente tudo. Mas, ao mesmo tempo, não tinha filtro do que realmente era importante e isso causava bastante ansiedade. Hoje, ela acredita que as melhores ferramentas para o dia a dia de um roteirista são aquelas que envolvem a rotina, como o Google Agenda, calendários de papel, blocos de notas, pastas e caixas transparentes para ver exatamente o que tem dentro e outras organizações do espaço de trabalho. Depois de pesquisar formas para se organizar criativamente, ela também aposta nas anotações em post-it e fichas.

Os manuais de roteiro dão o passo a passo de como construir uma história, e eles são de fato essenciais, principalmente para quem está aprendendo a ser roteirista. Mas, para Mabel, existe uma cobrança excessiva do jeito “certo” de se fazer as coisas. “O jeito que eu tenho de me organizar muda de acordo com o trabalho. Uma coisa que ajuda muito é escrever com outro roteirista. Se reunir para trabalhar motiva a escrever e os estímulos melhoram. Outra coisa que pode ser interessante é ter perto de você coisas que provoquem estímulos diferentes como quadros e lousas.”

Outro fator que Mabel relembra que devemos nos atentar é sobre a nossa percepção diferenciada do tempo. Muitas pessoas não sabem, mas o TDAH não possui a mesma dimensão de tempo igual a pessoas neurotípicas. Isso acontece por um negócio chamado Miopia Temporal. É o que faz a gente se atrasar para reuniões, perder prazos, podendo até confundir os dias da semana. Por isso, é muito importante que a gente treine muito para não perder horários e datas de entrega. Treine para sair mais e mais cedo de casa, coloque alarmes do celular ou comprar relógios específicos para TDAH – sim, eles existem! Eu também fiquei chocada.

 

A tal Síndrome do Impostor

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A expectativa da entrega perfeita costuma ser algo muito presente na vida de um TDAH. E, quando acontecem erros, a síndrome do impostor grita. Para Letícia essa é a parte mais difícil de ser roteirista. “N variáveis vão culminar no fato de que em algum momento você vai entregar um trabalho ruim e quando isso acontece é muito difícil racionalizar todas essas variáveis. A primeira coisa que você vai pensar é: descobriram a falha; descobriram a farsa. E é zero sobre isso, é sobre você ter feito um trabalho ruim e tá tudo bem! Pessoas típicas também entregam trabalhos ruins. É como um jogador de futebol, tem momentos bons e momentos ruins.”

Letícia aconselha que nesses momentos a gente chore bastante, mas também racionalize os eventos e se pergunte: o que contribuiu para que eu entregasse um trabalho ruim?

A nossa síndrome do impostor vem de um lugar que pessoas típicas não conhecem. Mas, saber que o erro ou crítica não é sobre a nossa capacidade, talento ou esforço, é o que vai fazer você persistir. Afinal, a vida de um roteirista é feita de muito “sim” e também de muito “não”.

A autocobrança também é algo que afeta a Mabel. Além disso, o diagnóstico tardio fez com que Mabel desenvolvesse uma ansiedade social. As vezes é inevitável que um TDAH desligue completamente por um tempo e ficamos com vergonha de perguntar algo, seja porque não prestamos atenção ou não entendemos. Para Mabel, está tudo bem perguntar, é necessário vencer esse medo.

 

A sala de roteiro

Toda vez que começa uma nova sala de roteiro, Letícia busca criar vínculos e conquistar a confiança dos colegas. Ela faz uma leitura da flexibilidade das pessoas e de como elas funcionam. “Em algum momento eu vou fazer algo diferente do que o típico está esperando. Conforme a gente vai se sentindo num ambiente seguro para ser quem a gente é, nos sentimos mais aptos a fazer negociações”.

Para Letícia, é muito bom ter uma parceria na sala, alguém com quem você possa contar e que saiba que pode contar com você também quando algo der errado. “Os motivos que levam um típico a se enrolar são diferentes dos nossos, mas todo mundo se enrola em algum momento”.

Para Mabel, as experiências nas salas de roteiro passaram a ser mais leves quando ela passou a ser sincera, tanto com ela mesma quanto com os seus colegas. No início, existiu um medo de compartilhar sobre o diagnóstico. Medo se sentir exposta ou não compreenderem. Foi um processo, mas quando começou a falar abertamente sobre o TDAH, sentiu-se mais confiante.

 

Hiperfoco da roteirista com TDAH

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Antes de saber o meu diagnóstico e entender o que era o hiperfoco, eu acreditava que era uma capacidade quase mágica de me manter concentrada por muitas horas. Quase 8 horas ininterruptas escrevendo meu primeiro curta e eu pensava: “Nossa, como estou empolgada hoje!” Mas, ao olhar pro lado, eu via uma pilha de trabalhos da faculdade e matérias acumuladas, então batia um pequeno desespero. Quando descobri o que era essa “tal concentração mágica” , percebi que ao mesmo tempo em que tinha um lado muito positivo, também tinha um lado negativo.

Para Letícia, o lado positivo do hiperfoco é que nós temos uma visão muito peculiar e recortada de determinado assunto que interessa a gente.

Porém, tanto Letícia quanto Mabel, acreditam que o hiperfoco tem dois lados. “Eu gostaria de ter mais controle sobre isso. Às vezes eu fico hiper focada numa personagem e perco muito tempo nisso. Com isso, esquecer de almoçar é um clássico. Mas tem o lado bom que é a motivação e o quanto a gente coloca de energia naquilo”, conta Mabel.

Para Mabel, o hiperfoco pode inclusive ser uma boa ferramenta para um Assistente de Roteiro, posição que exige muita organização e, no geral, as pessoas não associam à pessoa com TDAH. Ela não trabalhou nessa posição em sala, mas acompanhou o trabalho de alguns assistentes de roteiro. “Às vezes o hiperfoco da pessoa está na organização das demandas. É uma experiência que eu aconselho. Se deseja atuar na posição de assistente, vá com tudo, porque você vai aprender muito”.

Já Letícia acredita que a melhor forma de um TDAH trabalhar como assistente é criando o próprio método de organização, um método que seja inteligível para toda a sala. “É muito difícil chegar com essa autonomia porque você precisa criar um espaço de acolhimento. Vamos supor: o chefe de sala fez as planilhas dele? Você vai fazer as suas do seu jeito depois você vai passar a limpo pro jeito dele. Você precisa sistematizar para você primeiro. Se não, você vai sofrer bastante.”

 

Falando abertamente sobre o diagnóstico

As desinformações sobre o TDAH deixam muitos profissionais com um certo medo de conversar abertamente sobre o seu diagnóstico, mas isso pode causar muitos problemas.

Mabel conta que não foi nada fácil, por isso ela escondeu de seus colegas e amigos próximos durante um bom tempo. Em uma viagem com colegas roteiristas, ela não estava bem emocionalmente e numa conversa, ela decidiu contar. “Depois que eu me abri, me senti acolhida por eles e consegui ir me abrindo com meus colegas de profissão”. Assim, Mabel foi construindo uma rede de apoio.

No início da sua carreira, Letícia foi aconselhada a não falar sobre o seu diagnóstico. Ela se perguntava: “mas porque o TDAH é um problema se eu aprendi a ser funcional?” Hoje, existe uma demanda por diversidade e conversar sobre saúde mental tem se tornado cada vez mais comum. “Da mesma forma que eu faço um esforço absurdo pra me encaixar no mundo típico, eu acho que o mundo típico tem que saber que os atípicos existem e que a gente tá fazendo o melhor que a gente pode.”

 

Vai com medo mesmo

Amigos e amigas neuro divergentes, é normal se sentir inseguro ou inadequado. Refazer uma auto-percepção leva tempo e esforço – muito esforço! Por isso, cumprir com o tratamento – terapia e medicação- é inegociável. Sempre vai haver o medo de falhar, a síndrome do impostor vai bater à porta várias e várias vezes. Mas, se você estiver munido das ferramentas certas, tudo fica mais leve e manejável.

Para Mabel, é importante conversar com outros neuro divergentes que trabalham com roteiro. Construir uma comunidade em que a gente se escute, se acolha e aprenda junto. Não podemos deixar de viver nossos objetivos por medo de falhar.

Já Letícia acredita que, com o tempo e as experiências, a gente cria uma casca e aprende a administrar nossas inseguranças. “É muito difícil de superar isso, a não ser que você seja um homem hetero e rico, aí todas as portas se abrem pra você. Com o tempo você vai aprendendo a manejar. O que me serve de consolo é que pessoas típicas também são inseguras, pessoas típicas também falham. Você vai conviver com a insegurança, mas cabe a você o quanto de voz você não dá a ela.

 

Considerações finais

Quando comecei a escrever esse artigo, passei por muitos insights e momentos de ansiedade. Ao mesmo tempo em que foi bem difícil, porque ao ouvir Letícia e Mabel, lembrei de muitas situações semelhantes, também foi uma experiência em que me senti abraçada. Foi muito incrível conversar com mulheres e compartilhar experiências como nunca tinha falado antes. O quentinho que senti no meu coração ao aprender muito escrevendo esse artigo, eu espero que você meu amigo TDAH também sinta. É possível realizar nossos sonhos.

One thought on “Dá pra ser Roteirista com TDAH?

  1. Ivanessa says:

    Nossa esse post me encorajou ao mesmo tempo que me fez lembrar dos meus medos, inseguranças, traumas e questionamentos. Tenho TDAH e TOC o que gera bastante ansiedade. E atualmente com 31 anos estou tentando ingressar na carreira de roteirista e tava com medo e receio. Mas ouvir as experiências de vcs me ajudou, e me acolheu💜. Sei q o caminho no será fácil, mas vou em frente!

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