Roteiristas-chefes contam o que buscam num assistente de roteiro 

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A procura por séries originais aqueceu o mercado audiovisual brasileiro e acendeu uma nova luz para roteiristas iniciantes: o cargo de assistente de roteiro. Essa é uma profissão relativamente nova, mas que chegou com tudo no Brasil.

Além de ser uma ótima chance de se inserir no mercado, o assistente tem a oportunidade de aprender sobre os processos criativos de uma sala, dialogar com a produtora e o canal, e construir laços importantes para a carreira.

Mas como chegar a uma sala de roteiro? Quais são as qualificações? O assistente pode contribuir criativamente? Para responder essas e outras perguntas, conversei com os roteiristas-chefes Ricardo Tiezzi, Ludmila Naves e Luh Maza. Com experiências em diferentes projetos, os heads contam o que eles buscam num assistente de roteiro. 

A relação roteirista chefe e assistente de roteiro

Ricardo Tiezzi é professor e roteirista, já assinou obras como “Malhação” e “Julie e os Fantasmas” e atualmente está desenvolvendo a série “Santo Maldito”, da qual é co-criador para o canal Star+. Começou sua carreira como roteirista na sitcom “Mano a Mano” (2005), uma das primeiras séries do Brasil a investir no formato de sala de roteiro. Tiezzi conta que naquela época não havia a figura do assistente e isso fez muita falta. No primeiro momento, vieram 3 americanos para orientar os roteiristas quanto ao funcionamento da sala e eles dividiram as tarefas do assistente entre eles. A sala durou cerca de 9 meses e contou com 13 episódios. “Fui head numa fase e foi caótico organizar as ideias. Olhando para trás eu percebo o quanto a figura do assistente é fundamental”. 

Luh Maza é atriz, diretora, dramaturga e uma das roteiristas da 4a temporada de Sessão de Terapia (2012). Desde 2021, Luh Maza vem atuando como chefe de sala (séries ainda não divulgadas) e contou um pouco sobre a sua relação com o assistente. “Eu acho que existe uma ideia muito equivocada de ver o roteirista e o assistente de roteiro como um técnico e não como um artista. Muitas vezes ao se esperar um trabalho tecnocrata dentro de uma sala de roteiro, se subentende que o assistente é a ponta mais frágil e, portanto, a mais dispensável do processo. O assistente não é o roteirista que ainda não aconteceu. Ele só responde a outras demandas tão importantes quanto para o processo criativo”.

A roteirista Ludmila Naves, que trabalhou em produções como “As Five” e “Caso Evandro”, concorda: O assistente não tem só uma função de gravador ou datilógrafo.” Ela acredita que ser assistente numa sala equivale a receber uma mentoria.Eu gostaria de ter passado por essa experiência quando eu comecei, não tive essa oportunidade”.

O que os roteiristas-chefes buscam? 

Tiezzi se auto denomina militante da formação. Para ele, o assistente pode estar começando na carreira de roteirista, mas precisa ter passado por uma formação longa de no mínimo um ano. Para além disso, um bom assistente deve estar comprometido com a história e manter o foco nas discussões da sala. “O assistente é aquele que coloca a bola no chão e possibilita a criação dos roteiristas”. Para isso, o fator organização é essencial. O assistente deve ser aquele que coloca as ideias nas caixinhas certas, o que ele chama de “guardião das ideias.”

Para Ludmila, o assistente precisa ter uma base – cursos, leituras, ter escrito algo – mas não precisa entender tudo de roteiro. Para ela, o perfil do profissional é mais importante do que a competência técnica. “É importante saber o quanto a pessoa quer ser roteirista, o quanto ela está comprometida com a história. É uma maratona, não é um sprint.” Ela também levanta o fator organização como algo fundamental, além de saber se comunicar de forma objetiva. 

 Já a roteirista Luh Maza conta que a sensibilidade é uma característica fundamental. Para ela, o assistente precisa compreender as nuances da sala e ter uma boa resiliência. É essencial que o assistente tenha esse caráter autoral e seja aproveitado para além das tarefas operacionais. “A gente não pode esquecer que o assistente também é um artista que responde criativamente.” A head conta que não busca necessariamente experiência, mas o assistente precisa ter um bom conhecimento técnico de roteiro. 

O dia a dia do assistente de roteiro

No artigo O que faz um assistente de roteiro você encontra as tarefas que geralmente são demandadas pelos heads nas salas de roteiro. No entanto, elas podem variar um pouco de acordo com os roteiristas-chefes, tipos de projetos e fases da produção. 

Durante a fase de desenvolvimento criativo – discussão de temas, criação de personagens, escaletas e roteiro – o assistente faz os relatórios de sala, revisão dos roteiros, tem mais tempo para tirar dúvidas e participar. Quando a sala está num ritmo de desenvolvimento, tem mais espaço para o assistente escrever. Eu gosto de dar o perfil do personagem, por exemplo” – acrescenta Ludmila. 

Já quando as filmagens estão acontecendo simultaneamente ao desenvolvimento do roteiro, o ritmo é mais intenso. Esse foi o caso da série infantil “Escola de Gênios (2018)”, onde Ludmila foi roteirista-chefe. “O ritmo de trabalho era muito insano e a figura do assistente foi muito importante para o funcionamento da sala. Foram gravados em média 26 episódios por temporada e o desenvolvimento criativo era simultâneo à produção. Com isso, as demandas para o assistente eram de fazer uma ponte entre o roteiro e a equipe de produção.”

Mas, dependendo do gênero da série, essas funções também podem mudar. Ludmila conta que o assistente para séries documentais de true crime deve ter o dobro de cuidado com o volume de pesquisa que já vem antes de formar a sala. “Na ficção você lida com a lógica que a sala estabeleceu para aquele personagem, no true crime você lida com a falta de lógica do mundo real. A sala tem uma dinâmica diferente porque é preciso dar sentido dramático para o que já aconteceu.”

Já em uma novela diária como “Malhação”, Ricardo Tiezzi conta que o volume de conteúdo gerado é tão maior que as tarefas de organização do assistente ficam mais divididas entre os roteiristas. Assim, o assistente tende a ficar mais com os tópicos gerais da sala, como por exemplo, acompanhar qual roteirista vai cuidar de qual núcleo de personagens. Quanto ao cronograma, prefere fazer junto com o assistente pensando em como conseguir o máximo de tempo nas etapas mais importantes. 

Luh Maza conta que gosta de estar com o imaginário no criativo, por isso sempre combina com o assistente que ele cuidará da agenda da sala e terá sempre um olhar vigilante. Para ela, o assistente é a pessoa que fica responsável por colocar o cronograma na prática, que vai lembrar os prazos e as entregas. “Eu acho que é menos uma questão de cobrança porque cobrar a entrega é uma função da chefia da sala. O assistente fica com a função de lembrar os roteiristas e administrar essa agenda.” A head considera a ata de reunião como algo importante, um lugar onde se pode voltar para entender os caminhos do desenvolvimento. Ela também acha interessante quando o assistente contribui com uma revisão técnica antes da revisão criativa. 

Mas afinal, um assistente pode contribuir criativamente? 

Sabemos que no modelo americano, o assistente não participa criativamente na sala. Aqui no Brasil, se tem apostado num modelo mais aberto. Mas como interagir? Existe um limite? 

Para Tiezzi, é importante que o assistente participe, mas é preciso garantir que a participação não irá comprometer as suas anotações.

Ludmila conta que nunca esteve numa sala em que o assistente não pudesse falar suas ideias. Porém, é importante fazer uma leitura da sala para saber o momento de intervir. É preciso  saber o timing para tirar dúvidas. 

Luh Maza acredita que é essencial que o assistente participe, mas é preciso equilíbrio. Ela resume essa questão em duas palavrinhas: bom senso. O bom senso se dá tanto na participação do assistente, entendendo que num debate é muito importante ouvir a discussão e perceber como a sala pretende conduzir o tema no projeto. O bom senso também aparece no conhecimento de causa. “Algumas vezes o assistente é o único com conhecimento de causa dentro de um tema na sala. Nesse caso é primordial que o assistente fale primeiro.” Para Luh, é necessário que a sala proporcione um lugar onde o assistente se sinta acolhido e convocado a participar. 

Como encontrar as vagas de assistente de roteiro? 

Como professor, Tiezzi relembra a importância de se conectar com as pessoas nos cursos que fazemos. Os professores geralmente estão em salas de roteiro e podem fazer indicações para projetos. Outra dica importante é: tenha roteiros escritos! Para ele, é essencial ter um portfólio. “Não adianta ficar só no blablablá, é igual personagem, tem que ter ação!” 

Ludmila também acredita em ambos os caminhos. Para ela, montar uma rede para criar relações com quem já está no mercado e ter materiais escritos, são ótimas estratégias. É importante mostrar a sua habilidade de escrever uma história do começo ao fim. Isso faz toda a diferença. Ela também recomenda ir aos eventos de roteiro, participar de concursos e editais. “É preciso agarrar todas as oportunidades para escrever roteiro, afinal tudo dá experiência”. 

Luh Maza aposta num caminho diferente. Para ela, pode ser mais legal se aproximar de profissionais que trabalham com temas que verdadeiramente lhe interessem.É importante perguntar:  por que quero ser assistente desse profissional? E por que nesse projeto? Essa compreensão do tema e do coração do projeto é um algo a mais e quase um atalho que as pessoas não percebem. Você precisa saber a porta que está batendo e tendo o que oferecer. Por que você é tão importante para esse projeto?”

Maturidade ajuda? 

Com a entrada dos streamings e o boom nas salas de roteiro no Brasil, passou a existir uma grande demanda não só de profissionais criativos, mas também por uma equidade de pessoas diversas. 

Contratar pessoas mais velhas, por exemplo, é um ganho na opinião de Luh Maza. “Nos meus últimos trabalhos, os meus dois assistentes eram mais velhos que eu e eu achei isso ótimo! Não tem o mesmo conhecimento do mercado que eu, não está atuando no mesmo nível de visibilidade que eu, mas tem uma experiência de vida que vai contribuir certamente. Na minha experiência particular tem sido muito bom trabalhar com assistentes mais velhos.”

Encontramos muitas pessoas com mais de 30, 40 anos atrás dessas vagas quando estão fazendo uma mudança de carreira para “começar de novo”. Clique aqui para ler um artigo  com a história de 3 roteiristas que fizeram uma transição de carreira e fica sabendo como eles se  consolidaram num novo mercado. 

E aí, curtiu?  

Agora, é hora de iniciar o seu sonho de estar numa sala de roteiro. Os caminhos são muitos e diversos, mas os heads apontam para 3 estratégias: escreva, estude e faça muito network! Além disso, é importante saber os temas que te movem, que fazem o seu coração vibrar. E ainda que a formação técnica seja importante, o que vai fazer de você imprescindível para aquela história é a sua paixão de contá-la. 

Quer aprender tudo sobre a função do assistente de roteiro? Saiba mais sobre o Curso Online de Assistência de Roteiro, um conteúdo inédito no Brasil que te mostra como funciona uma sala de roteiro e como desempenhar as tarefas de assistente, sempre alinhado com tendências atuais do mercado de séries. 

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2 thoughts on “Roteiristas-chefes contam o que buscam num assistente de roteiro 

  1. Maria says:

    Legal, mas qual o problema ter mais de 30 ou 40 anos? São pessoas jovens e até hoje eu não vi nenhum roteirista que tenha menos do que essas idades. Já vi gente até de 40 e poucos anos que gostaria de trabalhar nessa área e está batalhando por isso. Então não tem problema nenhum, o importante é a capacidade.

  2. Andrea Yagui says:

    Oi, Maria. Nenhum problema em ser assistente com mais de 30 anos, inclusive no artigo a entrevistada diz que achou muito bom trabalhar com uma assistente mais velha que ela. Eu mesma tinha 38 na minha primeira sala. Um abraço.

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